No ano passado, tive que escrever um documentário sobre a catartica violência no Brasil. Desfrutem
Para a concretização do seu processo de democratização, o Brasil transitou por vários tipos de regime político, desde monarquia parlamentarista ao militarismo. Em todos esses processos, muitas das vezes as conquistas sociais foram ínfimas. Apenas em 1937, com o Estado Novo, a nação tupiniquim alçou alguns direitos. Dito como pai dos pobres e mãe dos ricos, Getúlio Vargas deu ao trabalhador garantias para se trabalhar dignamente, não obstante, Vargas não contemplou aos trabalhadores rurais esses mesmos direitos, em um país tipicamente agrário, que apenas foi contemplado em 1968.
Todo esse processo demonstra que as políticas firmadas no Brasil, nem sempre visam os seus cidadãos. Não há uma preocupação em garantir o que é direito e está na constituição: Educação, saúde, saneamento básico dentre outros direitos básicos. Nesse ano, o excelentíssimo senador Cristóvão Buarque inclui na constituição que todo brasileiro tem direito à busca pela felicidade. Mas ate que ponto um Estado pode garantir esse direito se, nem os direitos básicos, podem ser consumidos por todos os cidadãos, de todas as classes, credo, raça e idade?
Em 2000, o brasileiro acompanhou em tempo real, por meio de lentes afoitas por um sensacionalismo gratuito, o seqüestro do ônibus 174, que mais tarde, em 2002, se tornou um documentário dirigido pelo cineasta brasileiro, José Padilha. Sandro,era morador de rua, que viu sua mãe ser morta e, principalmente, foi sobrevivente da chacina da Candelária, ocorrida em 22 de julho de 1993. A chacina não vitimou apenas os oito jovens que estavam dormindo no centro histórico do Rio de Janeiro. A chacina foi um alerta para todos os brasileiros, mostrando à eles que algo estava errado nesse sistema excludente. Em tempo, a maioria dos brasileiros julgou certa a atitude dos militares de matar essas oito crianças. Mas, de quem seria a culpa? Vale lembrar que uma nação é composta por seres humanos, e seres humanos tem anseios que se concretizam em atos dos terceiros.
A chacina voltou aos noticiários em 12 de junho de 2000. Aqueles que não se lembrava do massacre, agora teriam que acompanhar, ao vivo, o desfecho de uma historia mal resolvida. Sandro, um dos sobreviventes, invade o ônibus da linha 174, e o seqüestra por horas. Assomando-s à lembrança da chacina com o desejo oculto para dar fim àquele episodio, muitos cariocas vão à rua acompanhar o seqüestro, ao vivo, e à cores. As câmeras de emissoras chegam, e inicia um joguete de encenação entre policias, seqüestrador, seqüestrados, e cidadãos. Todos sedentos pela morte de Sandro, o que simbolizaria o fim daquela violência. Ledo engano. Sandro, por sua vez, aproveita a sua grande oportunidade, e pede o seu grito de socorro. Por primeira vez, ele é o centro das atenções de um país inteiro. No final, temos duas vitimas: Geysa que foi morta com 3 tiros, um deles do snyper, que lhe acertou no rosto, e Sandro, que lhe deferiram um tiro, mas foi morto asfixiado no camburão da policia, morto à surdina por policias, para que esses, se saíssem como heróis de todo essa historia.
Esse episodio retrata a catarse de todos os envolvidos: A do Sandro, que, por primeira vez, é visto na sociedade; A dos policias, que vem no episodio a chance de serem heróis para os brasileiros, inflando os seus egos; A da população, principalmente quando correm para linchar o seqüestrador. Toda a angustia da insegurança toma forma e o tiro se torna um escudo para poderem agir com tamanha brutalidade; A da mídia, que quer dá o furo de reportagem e assim continuar com o seu “Q de qualidade”; E a dos seqüestrados que tiveram a oportunidade de refletirem, em tempo real, o que acontece no Brasil.
Tarcisio Costa cita no seu texto Os anos noventa: O acaso do político e a sacralização do mercado “A expectativa que prevalecia nas análises era de que nos anos noventa política e economia tomariam a mesma direção, o processo de consolidação da democracia evoluiria passo a passo com a estabilização da moeda e a retomada do crescimento, segundo um novo modelo de desenvolvimento”. Com isso ele alega que, após os anos 1980, que foi, economicamente perdida, mas em termos civis os brasileiros ganharam muito, o clima de otimismo pairou no ar tupiniquim. Todos acreditavam que a nova política econômica poderia fazer com que o Brasil voltasse a crescer e, agora com um modelo democrático enraizado, esse crescimento se dividiria por igual. Mas não foi o que realmente aconteceu. Mais uma vez, a base da sociedade foi esquecida. Está mais que provado que divisão das riquezas de um país gera crescimento para o mesmo, isso por que as pessoas terão dinheiro para investir em novos negócios, para comprar mercadorias, fazendo a maquina do capitalismo girar. Entretanto, a burguesia ignora esses fatores econômicos e deixam que Sandro’s e Geysa’s se tornem mais um mero joguete nas mãos da sociedade.
“Enquanto o acontecimento cria a notícia, a notícia também cria o acontecimento.” segundo Nelson Traquina. Com essa citação, Nelson Traquina resumi todo o objetivo que o filme de José Padilha quer retratar. O filme Ônibus 174 foi produzido dois anos após o seqüestro, entretanto, o filme é anacrônico e atópico, ou seja, poderia ser produzido em qualquer época e qualquer lugar.
O consagrado cineasta brasileiro, José Padilha, mostra não apenas o seqüestro, mas também, a maneira como ele decorreu ao longo das quase 12 horas. Padilha percorre a infância de Sandro, passando pela Candelária e a morte da mãe do mesmo. Mas Padilha não intenciona em tratar apenas o caso Sandro. O cineasta busca demonstrar que há vários Sandro’s nas ruas tanto do Rio de Janeiro, quanto de qualquer outro lugar do país. Ele não defende nenhum lado (nem o de Sandro em seqüestrar, nem os da vitima). Ele retrata quem são os culpados e vitimas ao mesmo tempo, e muitas das vezes, o Estado é culpado. Mas não se deve apenas culpar o Estado. Cabe sim, ao Estado a parcela de culpa por não garantir aos seus cidadãos o que a constituição os garante. Mas há também as Geysa’s que, moram em favelas, nem tem as mesmas oportunidades que a burguesia, mas não se tornam bandidos. Essa parcela de culpa cabe à sociedade que age com preconceito contra essas pessoas.
Assomado à isso, o filme do mesmo produtor de Tropa de Elite, transfigura a transmutação do individuo. Os que antes defendiam o Sandro na Chacina da Candelária, agora são os seus algozes e os que defendiam a morte de todos, agora se reservam o direito de se julgarem certos, e padecerem sem culpa. A catarse coletiva que tomou conta da platéia do cenário de horror no Rio de janeiro,era um grito de alerta para o sistema vigente. Infelizmente, pouca coisa mudou. Em 2009, o Brasil presenciou mais um seqüestro, que durou por 5 dias. Muitos diziam que Lindeberg queria ser mais um Sandro, que se aproveitou da presença da imprensa. No fim, mais um civil foi morto pelo erro da policia.
Diante dos fatos, a culpa pra tamanha violência estar em todos os lugares: desde a imprensa que não sabe ate onde vai o seu papel- o furo de noticia se tornou mais significativo que uma vida- e da própria sociedade que reprime o papel da imprensa, mas está sedenta por casos como o de Eloá, Sandro, João Gabriel dentre outros. Deve-se culpar o Estado até que ponto? O Estado é governado por cidadãos que foram eleitos pelos cidadãos, ou seja, a nação tem em suas mãos a chance de mudar a realidade à cada 4 anos. Vale ressaltar que, a sociedade é catártica. É da natureza humana desejar algo, e quando alguém realiza esse algo, ela se sente feliz, satisfeita, assim como ocorreu no caso do Sandro que todos vibraram quando ele foi alvejado. A simbologia da morte de Sandro marcou muito mais que a morte de Geysa. Mais uma vez, o Estado saiu como o herói covarde que mata para não cuidar do verdadeiro problema, que prefere não buscar soluções para salvar essas crianças que um dia serão adultas, e se tornarão agressivas e selvagens, deslocadas de um mundo que não se habituaram a morar. Geysa’s e Sandro’s vão existir por todo sempre, é uma utopia crer que isso vai acabar. Mas não é utópico pensar que esse problema tem uma solução, e essa solução já está escrita. O Estatuto da Criança e Adolescente garante à todos os direito de brincar e estudar. Infelizmente, palavras não saem do papel, e atitudes para mudarem essa situação não são tomadas.
Resta saber se, com essa mudança na constituição em 2010 algo será feito. E que todos tenham o direito à busca pela felicidade, sem que para isso, mais um inocente, mais um Sandro e mais uma Geysa, tenham que pagar com a própria vida, os atos insossos do Estado e da sociedade que clama por paz, mas na primeira oportunidade, vira o seu próprio algoz, aumentando ainda mais a vontade dos Sandro’s em se tornarem os seus próprios senhores, e fazer da sociedade os seus servos, como a sociedade faz com eles.